terça-feira, 5 de janeiro de 2010



Estávamos em Santiago e iríamos para Mendoza, logo alí atrás dos Andes.
"Vocês querem que a van do trekking venha buscar vocês?" perguntou-nos o cunhado, que tinha ido fazer uma expedição no Aconcágua.
"Claro que sim" respondemos entusiasmados, já que isso consistia em um problema a menos para resolver.
Depois de uns dias passeando, avisamos o porteiro do hotel que logo uma van viria nos buscar.
Aguardavamos no quarto quando toca o telefone - "Don Gomes", "Sí?" disse eu.
"Su transporte" disse a voz séria e grave do bell boy do hotel.
Descemos alegres, com as malas, os dois bem arrumadinhos para viajar e cruzar os Andes.
Bem na frente do hotel, em meio aos carros modernos e bem conservados que hoje trafegam em Santiago, junto a BMW's, Audis, e Mercedes, encontramos, garboso e repimpado, um Peugeot argentino com mais de vinte anos de idade. A pintura desbotada, umas manchas de massa, de batidas reparadas sem pintura, e o parachoque amarrado com arame.
Em posição de sentido, ao lado do noso "transporte" (agora eu entendia o eufemismo), um motorista perfeitamente de acordo com "El Auto".
Um senhor baixote, pele tostada, cabelos cinzentos, roupa velha, e um simpático sorriso por onde se percebia a nada discreta ausência de alguns molares.
Não preciso dizer a pressa com que tratei de embarcar naquela lata velha, e sair de perto da turma de bacanas que nos olhavam de cima, como se fossemos uns hóspedes expulsos do hotel por não pagar as contas.
Bem, os bacanas eram nada mais nada menos do que a normal população de porta de hotel. Motoristas de taxi, porteiros, faxineiros, etc., Chilenos que a essas alturas se sentiam milhões de vezes melhores que os argentinos, que naquele momento eram representados por nós, o casal que ia embarcar para Mendoza no Peugeot que, de tão velho, deve ter transportado até Carlos Gardel.
Iniciada a viagem, fomos conversando com o motorista, cujo nome esquecí, e que se revelou simpaticíssimo.
Disse que fazia o trajeto diariamente, trazendo e levando passageiros, encomendas, documentos, etc.
Que o "auto", apesar de velho, estava em excelentes condições, e que tinha um carburador especialmente regulado para que não sofresse falta de ar lá nas alturas dos Andes. "No se vá apunar", dizia ele.
A viagem transcorreu sem maiores novidades, além da majestosa beleza daquelas montanhas que me apaixonam, e donde, eu tenho certeza, vem parte do meu sangue.
Chegamos então à fronteira, onde carimbamos a saída do Chile em nossos passaportes, e rodamos um pouco mais, inclusive o longuíssimo túnel, para chegar ao "Complejo de Los Horcones", que é uma estrutura grande que cobre a praça de cabines da imigração e alfândega Argentinos.
Havia uma grande fila.
Na nossa frente, vários carros e alguns ônibus de turistas europeus, os quais chamavam especialmente a atenção.
Todos jovens, altos, de cabelos louros, equipamentos de fotografia, filmagem, roupas de exploradores modernos, tudo cheirando a novo, e à riqueza do primeiro mundo, num forte contraste com a pobreza das paragens e do povo locais.
Parado o carro, Bel e eu nos acomodamos para o que seria uma longa espera na fila.
Eis que o nosso desdentado motorista, que tinha saído do carro, volta e nos diz para pegarmos nossos documentos e seguí-lo.
Passamos ao lado de vários guichês onde se organizavam em filas comportadas aqueles turistas vikings, e fomos até um que estava vazio.
Assim que chegamos, surgiu um funcionário, acendeu a luz, pegou nossos passaportes, carimbou sem nem olhar direito, devolveu, apagou a luz e se mandou.
"Para el auto", disse "nuestro condutor", vamos embora que ainda temos que almoçar.
Agora vem uma das melhore partes.
Uma vez dentro do carro, o motorista fez umas manobras, saiu da fila, e começou a circundar o imponente Complejo.
Encontramos, logicamente, um alta cerca, um tipo de alambrado, munido daquela coisa cheia de farpas no alto, chamada concertina, e que dividia a terra de ninguém que fica entre os dois países, da maravilhosa terra de nuestros hermanos.
No ponto onde a cerca tocava a parede do prédio, havia uma discreta mas conveniente abertura, por onde o carro passou.
Passou meio justo, mas passou sem problemas.
A etapa seguinte foi entrar de marcha a ré na alfândega argentina.
Aberto o porta-malas, mais um funcionário argentino, que usando o antigo sistema do rabisco com giz, liberou nossas bagagens sem nenhuma inspeção.
Quem disse que os Argentinos não são gente boa?
Fiquei no auge do contentamento. Nosso bagaço sobre rodas parecia uma limousine Rolls Royce percorrendo o Boulevard des Champs Elisées, enquanto o primeiro mundo, em pé, na fila, observava.
Em seguida paramos em um restaurante de beira de estrada, num lugar chamado Uspallata, já que quando chegássemos a Mendoza estaria tudo fechado.
Temos que comer, dizia nosso guia, agora quase um guia espiritual, um verdadeiro herói dos Andes.
No restaurante ele nos olhou e falou, rapidamente e um por vez, "bife de chorizo?", "bife de chorizo?", "sí, por supuesto" dissemos, "e para usted tambien".
O homem sumiu na cozinha, um garçom nos acomodou numa das mesas, cujas toalhas eram folhas de papel manteiga, e quinze minutos depois voltaram, com o melhor "bife de chorizo" que já comemos até hoje.
Era tão macio que o nosso amigo comia sem problema nenhum, apesar da falta dos mastigadores.
O melhor da festa foi o final, quando acabávamos de comer, ver a chegada dos ônibus dos turistas europeus, varados de fome, formando uma fila comportada na porta do restaurante lotado.