domingo, 20 de dezembro de 2009

Nórfu e a interpretação dos sonhos

Certo dia, estava eu andando pela lavoura de altos e densos pés de café, verificando o andamento de um serviço de capina.
A exuberância da folhagem me permitiu chegar sem ser visto ou ouvido ao colóquio que mantinham o Nórfu (Onofre nos documentos) e um outro cujo nome esqueci.
Enquanto o Nórfu preparava um “palheiro”, picando o fumo miudinho com o canivete, seu companheiro de diálogo amolava a enxada com uma lima velha, preparando o instrumento e descansando, física e mentalmente, do complexo trabalho da capina de café.
Diga-se, de passagem, que não é qualquer um sem noção que logra sucesso em encabar uma enxada no ângulo correto, num cabo de guatambu (se encontrar a preciosa madeira), no peso adequado, amolá-la, e manobrá-la do jeito certo, para que corte o mato sem esforço, não fique enterrando no chão o tempo todo, e não canse os braços em demasia por causa do peso. Não senhor, isso é assunto complexo, para profissionais, e aprendido à custa de tempo e sofrimento caloso nas mãos.
Lá vou eu desviando o assunto para as coisas velhas da lavoura, por que esse assunto de enxada é coisa do passado, luxo de antigamente onde a mão de obra era barata, o ar era limpo e o sexo era considerado sujo.
Cortando o fumo nas grossas mãos, o Nórfu falava para o companheiro sobre o terrível pesadelo que tivera naquela noite.
O demônio, sim, em pessoa, o tinhoso, o esquerdo, o asmodeu, o canhoto, o cramunhão, o satanás, o belzebu, Lúcifer o arcanjo caído.
O diabo, enfim, cutucava o Nórfu com o tridente, que numa corruptela de forcado, é chamado aqui de fôrca. Fosse a ferramenta uma fôrca dos dentes curvos, como garras, para puxar feno ou algodão secando no terreiro, levaria o sugestivo nome de “gadanho”.
“Pois é sô Inácio (fica bom este nome), eu tava todo enroladinho nuns pano amarrado, na beradiquinha dum precipíçu, e o dêmo mi carcava a fôrca na bunda pra módi d’eu caí”.
“E aí Nórfu?”
“E aí qui eu caí. Espenquei na goela do buracão dos môrto mai graças a nossinhor Jesus Cristo acordei , bufando, na minha cama, zóião arregalado, todo enrolado no lençór”.
“Foi aí que eu si dei conta do porquê do sonho. Fui vê o que tava me cutucano a bunda, e era a minha lima de amolá enxada”.
Felizmente o Nórfu, além de valente capinador, é um exímio interpretador de sonhos, não sei se de linha freudiana ou jungiana, esta com toda a sua peculiar simbologia.
Esse cidadão, que foi dormir sem tomar banho, usando a roupa do dia anterior, com a lima no bolso, e certamente também o fumo e o canivete, positivamente bêbado, é um tipo de trabalhador rural que vive só.
Eventualmente tem a companhia de outro homem, irmão, parente, ou só amigo.
Invariavelmente, tem um cachorro.
E como é forçado a lavar e costurar as próprias roupas, o que geralmente faz mal e porcamente, e a cozinhar para si, também sem muita habilidade e higiene, diz-se dele que “queima lata”.
Veio daí minha compreensão da sociedade conjugal primitiva, onde ele entra com a força bruta, a intrepidez na obtenção de recursos para o lar, e ela entra com a roupa lavada, a comida, os cuidados com a prole, e o sexo.
É isso aí, o sexo romântico na vida dessas mulheres cansadas, atarefadas e sobrecarregadas tem muito pouco de prazer, e muito de obrigação.
“Cê vai mi usá hoje Zé?”
“Não? Que bom, então vô lavá só os pé!"


Antonio Gomes

Um comentário:

  1. Gostei muito.
    Gostei da interpretação do sonho, que me pareceu Freudina(não sou psicanalista, mas sou analisada), e gostei de relembrar parte da minha vida que também foi numa fazenda de café.

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