sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Poema De Natal




Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos –
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos –
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai –
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte –
De repente nunca mais esperaremos...

Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Vinicius de Moraes

domingo, 20 de dezembro de 2009

Nórfu e a interpretação dos sonhos

Certo dia, estava eu andando pela lavoura de altos e densos pés de café, verificando o andamento de um serviço de capina.
A exuberância da folhagem me permitiu chegar sem ser visto ou ouvido ao colóquio que mantinham o Nórfu (Onofre nos documentos) e um outro cujo nome esqueci.
Enquanto o Nórfu preparava um “palheiro”, picando o fumo miudinho com o canivete, seu companheiro de diálogo amolava a enxada com uma lima velha, preparando o instrumento e descansando, física e mentalmente, do complexo trabalho da capina de café.
Diga-se, de passagem, que não é qualquer um sem noção que logra sucesso em encabar uma enxada no ângulo correto, num cabo de guatambu (se encontrar a preciosa madeira), no peso adequado, amolá-la, e manobrá-la do jeito certo, para que corte o mato sem esforço, não fique enterrando no chão o tempo todo, e não canse os braços em demasia por causa do peso. Não senhor, isso é assunto complexo, para profissionais, e aprendido à custa de tempo e sofrimento caloso nas mãos.
Lá vou eu desviando o assunto para as coisas velhas da lavoura, por que esse assunto de enxada é coisa do passado, luxo de antigamente onde a mão de obra era barata, o ar era limpo e o sexo era considerado sujo.
Cortando o fumo nas grossas mãos, o Nórfu falava para o companheiro sobre o terrível pesadelo que tivera naquela noite.
O demônio, sim, em pessoa, o tinhoso, o esquerdo, o asmodeu, o canhoto, o cramunhão, o satanás, o belzebu, Lúcifer o arcanjo caído.
O diabo, enfim, cutucava o Nórfu com o tridente, que numa corruptela de forcado, é chamado aqui de fôrca. Fosse a ferramenta uma fôrca dos dentes curvos, como garras, para puxar feno ou algodão secando no terreiro, levaria o sugestivo nome de “gadanho”.
“Pois é sô Inácio (fica bom este nome), eu tava todo enroladinho nuns pano amarrado, na beradiquinha dum precipíçu, e o dêmo mi carcava a fôrca na bunda pra módi d’eu caí”.
“E aí Nórfu?”
“E aí qui eu caí. Espenquei na goela do buracão dos môrto mai graças a nossinhor Jesus Cristo acordei , bufando, na minha cama, zóião arregalado, todo enrolado no lençór”.
“Foi aí que eu si dei conta do porquê do sonho. Fui vê o que tava me cutucano a bunda, e era a minha lima de amolá enxada”.
Felizmente o Nórfu, além de valente capinador, é um exímio interpretador de sonhos, não sei se de linha freudiana ou jungiana, esta com toda a sua peculiar simbologia.
Esse cidadão, que foi dormir sem tomar banho, usando a roupa do dia anterior, com a lima no bolso, e certamente também o fumo e o canivete, positivamente bêbado, é um tipo de trabalhador rural que vive só.
Eventualmente tem a companhia de outro homem, irmão, parente, ou só amigo.
Invariavelmente, tem um cachorro.
E como é forçado a lavar e costurar as próprias roupas, o que geralmente faz mal e porcamente, e a cozinhar para si, também sem muita habilidade e higiene, diz-se dele que “queima lata”.
Veio daí minha compreensão da sociedade conjugal primitiva, onde ele entra com a força bruta, a intrepidez na obtenção de recursos para o lar, e ela entra com a roupa lavada, a comida, os cuidados com a prole, e o sexo.
É isso aí, o sexo romântico na vida dessas mulheres cansadas, atarefadas e sobrecarregadas tem muito pouco de prazer, e muito de obrigação.
“Cê vai mi usá hoje Zé?”
“Não? Que bom, então vô lavá só os pé!"


Antonio Gomes

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

POEMA DE FINADOS

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"AMANHÃ que é dia dos mortos
Vai ao cemitério.Vai
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.
Leva três rosas bem bonitas.
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho:
O filho tem mais precisão.
O que resta de mim na vida
É a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero,
E em verdade estou morto ali."

Manuel Bandeira

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Omar Khayam



"El vino, al brindarte calor,
te libertará de las nieves del pasado
y de las brumas del porvenir.
Y al inundarte de luz,
romperá tus cadenas de galeote"

"O vinho, ao dar-te calor,
te libertará das neves do passado
e das brumas do futuro.
E ao inundar-te de luz,
romperá teus grilhões de prisioneiro"


O verso é de Omar Khayam, no seu conjunto de poemas, “Os Rubayat”, e soa tão melhor na versão em espanhol.
Khayyam foi um poeta, matemático e astrônomo nascido em 1048no século 11 na antiga Pérsia, atual Irã.
Na mesma época, na Europa feudal, os Normandos ainda estavam invadindo a Inglaterra.

A julgar pelas quadras (Rubayats) escolhidas as seguir, as dúvidas sobre a existência humana não são privilégio nosso.

"Alguns amigos me dizem: Não bebas mais Khayyam.
Respondo: Quando bebo, ouço o que me dizem
as rosas, as tulipas, os jasmins;
ouço até o que não me diz a minha amada."

"Tenho igual desprezo por libertinos ou devotos.
Quem irá dizer se terão o Céu ou o Inferno?
Conheces alguém que visitou esses lugares?
E ainda queres encher o mar com pedras?"

"Cristãos, judeus, muçulmanos, rezam,
com medo do inferno; mas se realmente soubessem
dos segredos de Deus, não iam plantar
as mesquinhas sementes do medo e da súplica."

"O vasto mundo: um grão de areia no espaço.
A ciência dos homens: palavras. Os povos,
os animais, as flores dos sete climas: sombras.
O profundo resultado da tua meditação: nada."

"Baixinho a argila dizia
ao oleiro que a torneava:
Já fui como tu, não te esqueças,
não me maltrates."

"O meu nascimento não aumentou o Universo,
nem a minha morte lhe fanará o esplendor.
Ninguém me dirá por quê vim ao mundo,
ou porquê um dia irei embora."

"Um pouco de pão, um pouco de água,
a sombra de uma árvore, e o teu olhar;
nenhum sultão é mais feliz do que eu,
e nenhum mendigo é mais triste."

"No turbilhão da vida são felizes aqueles
que presumindo saber tudo não se instruem.
Fui buscar os segredos do Universo e voltei
invejando os cegos que encontrei pelo caminho."

"Colhe os frutos que a vida te oferece
e escolhe as taças maiores;
não creias que Deus vá fazer as contas
dos teus vícios e das tuas virtudes."

"Rosas, taças, lábios vermelhos:
brinquedos que o Tempo estraga;
estudo, meditação, renúncia:
cinzas que o Tempo espalha"

Os versos completos estão aquí:
http://www.alfredo-braga.pro.br/poesia/rubaiyat.html

terça-feira, 6 de outubro de 2009

"Conciencia Nunca Dormida"




"¡Conciencia, nunca dormida,
mudo y pertinaz testigo
que no dejas sin castigo
ningún crimen en la vida!
La ley calla, el mundo olvida;
mas ¿quién sacude tu yugo?
Al Sumo Hacedor le plugo
que a solas con el pecado
fueses tú para el culpado
delator, juez y verdugo."

"Consciência, que nunca adormece,
testemunha teimosa e muda
que não deixa sem castigo
nenhum crime nesta vida!
A lei cala, o mundo se esquece;
mas quem se livra do seu jugo?
Ao Supremo Criador suplico
que a sós com o pecado
sejas tu para o culpado
promotor, juiz e carrasco"

Última estrofe do poema El Vertigo (1879)

Gaspar Núñez de Arce (Valladolid, 1834 – Madrid, 1903), poeta e político espanhol.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Violões que Choram...




Ah! plangentes violões dormentes, mornos,
soluços ao luar, choros ao vento...
Tristes perfis, os mais vagos contornos,
bocas murmurejantes de lamento.
Noites de além, remotas, que eu recordo,
noites de solidão, noites remotas
que nos azuis das Fantasias bordo,
vou constelando de visões ignotas.
Sutis palpitações à luz da lua
anseio dos momentos mais saudosos,
quando lá choram na deserta rua
as cordas vivas dos violões chorosos.
Quando os sons dos violões vão soluçando,
quando os sons dos violões nas cordas gemem,
e vão dilacerando e deliciando,
rasgando as almas que nas sombras tremem.
Harmonias que pungem, que laceram,
dedos nervosos e ágeis que percorrem
cordas e um mundo de dolências geram,
gemidos, prantos, que no espaço morrem...
E sons soturnos, suspiradas mágoas,
mágoas amargas e melancolias,
no sussurro monótono das águas,
noturnamente, entre ramagens frias.
Vozes veladas, veludosas vozes,
volúpias dos violões, vozes veladas,
vagam nos velhos vórtices velozes
dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Olha essas velhas árvores

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"Olha essas velhas árvores, - mais belas,
Do que as árvores mais moças, mais amigas,
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas...

O homem, a fera e o inseto à sombra delas
Vivem livres de fomes e fadigas;
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas . . .

Não choremos jamais a mocidade!
Envelheçamos rindo! envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem,

Na glória da alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!"

Olavo Bilac

terça-feira, 8 de setembro de 2009

A Dourada Abelha da Fantasia

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"Na arte, a indisciplina dos novos, a sua rebelde força de resistência às correntes da tradição, é indispensável para a revivescência da invenção e do poder criativo, e para a originalidade artística. Ai das literaturas em que não há mocidade! Como os velhos que atravessaram a vida sem o sobressalto de uma aventura, não haverá nelas que lembrar. Além de que, para os que na idade madura foram arrancados pelo dever às facilidades da improvisação e entraram nesta região dura das coisas exactas, entristecedora e mesquinha, onde, em lugar do esplendor dos heroísmos e da beleza das paixões só há a pequenez dos caracteres e a miséria dos sentimentos, seria doce e reconfortante ouvir de longe a longe, nas manhãs de sol, ao voltar da primavera, zumbir no azul, como nos bons tempos, a dourada abelha da fantasia."

Lisboa, 14 de Dezembro de 1884 no prefácio a "O Mistério da Estrada de Sintra"

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

"Se" de Rudyard Kipling tradução de Guilherme de Almeida

Em tradução magnífica, "Guilherme de Almeida", um "imortal" de verdade, nos trás o poema "If" de Rudyard Kipling.
As mulheres, por favor, sejam compreensivas quando ele usa o termo "Homem". Naquele tempo, não lhes tinha sido reconhecido, sequer, o direito ao voto, que só foi conquistado no Reino Unido em 1918 e no Brasil em 1931.

Guilherme de Almeida


Rudyard Kipling



Se

Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;

Se és capaz de pensar --sem que a isso só te atires,
De sonhar --sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: "Persiste!";

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais --tu serás um homem, ó meu filho!

If

If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you
But make allowance for their doubting too,
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don't deal in lies,
Or being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise;

If you can dream--and not make dreams your master,
If you can think--and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build 'em up with worn-out tools;

If you can make one heap of all your winnings
And risk it all on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on!"

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings --nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much,
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that's in it,
And --which is more-- you'll be a Man, my son!

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

O Arminho e o Tribunal

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Eu disse lá em cima, no título, que este blog não trata de política.
Então vamos falar de natureza.
Acho que todos já ouviram falar do bichinho aí da foto, o arminho, e todos sabem como sua pele branca é cobiçada.
Segundo a Wikipédia, a espécie ocupa todas as florestas temperadas, árticas e sub-árticas da Europa, Ásia e América do Norte, e não está ameaçada de extinção.
A pelagem branca imaculada é sua camuflagem de inverno, e o mantém a salvo de seus inúmeros predadores.
Essa camuflagem branca lhe é tão fundamental que se o arminho for encurralado num lamaçal, prefere deixar-se apanhar.
Ele sabe que se sujar sua pele, perderá sua mais importante proteção, e será devorado pelo primeiro predador astuto que aparecer.
Por esse motivo a pele do arminho ornamenta as togas de juízes e magistrados.
É o símbolo da incorruptibilidade. E tem sido desde a idade média.
“Malo mori quam maculari” é a expressão em latim.
Melhor a morte do que a mácula, a sujeira, a desonra.
Na tarde de ontem, alguns arminhos do STF preferiram emporcalhar suas pelagens, cortando caminho pelo lamaçal.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Máximas e Mínimas do Barão de Itararé


. De onde menos se espera, daí é que não sai nada.
. Mais vale um galo no terreiro do que dois na testa.
. Quem empresta, adeus...
. Dize-me com quem andas e eu te direi se vou contigo.
. Pobre, quando mete a mão no bolso, só tira os cinco dedos.
. Quando pobre come frango, um dos dois está doente.
. Genro é um homem casado com uma mulher cuja mãe se mete em tudo.
. Cleptomaníaco: ladrão rico. Gatuno: cleptomaníaco pobre.
. Quem só fala dos grandes, pequeno fica.
. Viúva rica, com um olho chora e com o outro se explica.
. Um bom jornalista é um sujeito que esvazia totalmente a cabeça para o dono do jornal encher nababescamente a barriga.
. Neurastenia é doença de gente rica. Pobre neurastênico é malcriado.
. O voto deve ser rigorosamente secreto. Só assim , afinal, o eleitor não terá vergonha de votar no seu candidato.
. Os juros são o perfume do capital.
. Orçamento é uma conta que se faz para saveire como debemos aplicaire o dinheiro que já gastamos.
. Negociata é todo bom negócio para o qual não fomos convidados.
. O banco é uma instituição que empresta dinheiro à gente se a gente apresentar provas suficientes de que não precisa de dinheiro.
. A gramática é o inspetor de veículos dos pronomes.
. Cobra é um animal careca com ondulação permanente.
. Tudo seria fácil se não fossem as dificuldades.
. Sábio é o homem que chega a ter consciência da sua ignorância.
. Há seguramente um prazer em ser louco que só os loucos conhecem.
. É mais fácil sustentar dez filhos que um vício.
. A esperança é o pão sem manteiga dos desgraçados.
. Adolescência é a idade em que o garoto se recusa a acreditar que um dia ficará chato como o pai.
. O advogado, segundo Brougham, é um cavalheiro que põe os nossos bens a salvo dos nossos inimigos e os guarda para si.
. Senso de humor é o sentimento que faz você rir daquilo que o deixaria louco de raiva se acontecesse com você.
. Mulher moderna calça as botas e bota as calças.
. A televisão é a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana.
. Este mundo é redondo, mas está ficando muito chato.
. Pão, quanto mais quente, mais fresco.
. A promissória é uma questão "de...vida". O pagamento é de morte.
. A forca é o mais desagradável dos instrumentos de corda.

Poema em Linha Reta


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.



terça-feira, 25 de agosto de 2009

De Semideuses e Genís.

Curiosa essa nossa necessidade, humana e mortal, de precisar tanto de ídolos, deuses e semideuses.
Imortais de preferência e por definição.
Já era assim na Grécia, por que não aqui também?
A vitória de Barrichello domingo passado me faz relembrar o tema.
Por que um indivíduo com uma carreira brilhante, numa atividade de alta competitividade e risco, continua a ser sistematicamente menosprezado?
Uma trajetória mais bem sucedida e longa que a da grande maioria dos pilotos.
Uma vida pessoal e familiar equilibrada.
Tenacidade e trabalho duro.
E, no entanto, não é isso que queremos.
Não desejamos um nosso igual.
Queremos alguém com a marca do dedo de Deus, um escolhido do Criador Todo Poderoso, e que por essa única razão seja superior aos simples mortais.
Já que essa marca não apareceu, achamos que ele está como todos nós, aos pés do Olimpo, olhando para cima, em direção ao falecido semideus que, em nossa visão pequena, não igualou.
E em nossa frustração, alternamos para outra necessidade, tão perversa quanto humana, que é a de ter uma Gení, aquela enxovalhada personagem da música de Chico.
Se Rubinho desse bola para essa torcida teria desistido.
Felizmente não o fez, e deu mais um bom exemplo.